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Criando Valor em múltiplas Dimensões

Por Fabiana Camera


O modelo de uma organização consciente, como visto, possui quatro pilares básicos: Liderança servidora, Integração dos stakeholders, propósito evolutivo e cultura responsável. Cada pilar tem uma importância estratégica no processo de estabelecer uma empresa consciente e, a criação de valor é fundamental para que todos esses pilares evoluam para a geração de um impacto positivo para todos os envolvidos.

Os líderes conscientes possuem um papel de servir ao propósito da organização, dar apoio aos seus colaboradores e criar valor para todos os stakeholders. Mas, o que significa criar valor afinal?


Pensando fora da Caixa


Criar valor está relacionado com a criação de novas soluções, apresentar variáveis que não estão visíveis e que permitam expandir o conjunto de opções de benefícios viáveis para todas as partes e, para isso, torna-se necessário identificar o real interesse dos stakeholders. Por mais que possa parecer simples, essa identificação requer muitas vezes técnicas que permitam compreender quais são as reais necessidades, desejos e motivações para que se possa de fato, identificar novos elementos que aumentem o leque de soluções que satisfaçam os interesses de todos.


A orientação para os stakeholders é uma mudança de modelo, pois muitas organizações ainda persistem em focar no curto prazo e na satisfação dos interesses de seus acionistas e investidores (shareholders), porém, o que percebemos é que essa visão limitada não se sustenta ao longo dos anos. É necessário que o líder perceba: quem são os seus stakeholders? Quais os interesses envolvidos no processo? Qual o impacto que a empresa gera para todas as partes, direta ou indiretamente? Existem outras variáveis em jogo que não somente o lucro que possam satisfazer aos interesses de todos? Para se criar valor precisamos dessas respostas.


Barreiras para criação de valor


Existem diversos tipos de obstáculos que acabam por atrapalhar o nosso processo de criação e geração de valor. Muitas dessas barreiras são criadas por nós mesmos, como por exemplo, medos, diferença de percepções, preconceitos, criação de estereótipos etc.

Para se criar valor, como próprio verbo diz, é preciso ter criatividade e fazer muito exercício para se pensar fora da caixa, além disso, existem diversas barreiras cognitivas que acabam por nos atrapalhar nesse processo criativo. Temos a tendência em evitar mudanças e criar novos caminhos, pois nosso cérebro oferece sempre a solução mais prática, fácil e acabamos por manter ligados aquilo que sabemos e conhecemos e, buscar o novo torna-se cada vez mais complexo.


Fischer et al [1] apontam quatro obstáculos que inibem a criação de valor e a multiplicidade de opções: o julgamento prematuro; a busca de uma resposta única; a pressuposição de um bolo fixo; e pensar que “resolver o problema deles é problema deles”.


- O Julgamento Prematuro


Se precisamos expandir as possibilidades de soluções para geração de valor não podemos limitar a nossa amostra, ou seja, quando julgamos alguém prematuramente sem mesmo conhecer mais profundamente sobre o fato, podemos estar perdermos ou excluindo antecipadamente boas oportunidades.


- Busca por uma Resposta Única


Quando focamos exclusivamente em uma única forma de solução, seja ela a mais prática ou a mais óbvia para a empresa, esse comportamento inibe bastante a nossa capacidade de criar e identificar novas variáveis que possam ser de fato relevante para as partes. Por exemplo, algumas empresas ainda estão com o foco na satisfação exclusiva dos seus investidores e acionistas e o foco nas variáveis exclusivamente monetárias torna-se a parte mais importante da negociação (salários, comissões, pró-labores, lucros, margens, etc.), o que não deveria ocorrer.

Pressuposição do Bolo Fixo


Essa expressão do “bolo fixo” é muito usada pela ciência da negociação, o que significa que ao negociarmos partimos do princípio de que o bolo é fixo e quem conseguir a maior fatia do bolo, “ganha” a negociação. Essa expressão está relacionada às negociações tipicamente win-lose, ou negociações competitivas. Quando partimos para uma negociação com a pressuposição de que iremos competir, significa que enxergamos o outro como nosso adversário. É preciso mudar esse mindset para se criar valor. Se estamos negociando é porque existe uma interdependência entre as partes em busca de um resultado melhor. Vencer essa barreira é permitir que as partes juntas possam alcançar um acordo ou encontrar soluções que de fato sejam mutuamente satisfatórias e que assim consigam “expandir” o bolo com novas opções e alternativas.


- “Resolver o Problema deles é problema deles”


Líderes conscientes concentram-se em “nós” e não no “eu”. Pensar que o problema do outro é só do outro é uma forma míope de enxergar. O que diferencia uma empresa consciente de outras é justamente ter essa visão mais abrangente e holística da situação, permitindo ter o maior nível de consciência de que ser colaborativo na resolução de problemas poderá abrir grandes oportunidades de geração de valor.


Heurísticas cognitivas que afetam os nossos julgamentos


Complementando o que foi apresentado anteriormente por Roger Fisher, Bazerman [2], Neale e Northcraft [3] e Tversky e Kahneman [4] fornecem também informações críticas específicas sobre desvios sistemáticos nas tomadas de decisões que influenciam o nosso julgamento. Tais autores apresentam que as pessoas se fiam em diversas estratégias simplificadoras ou regras práticas ao tomar decisões (chamadas de heurísticas) e isso pode comprometer a nossa capacidade de gerar novas ideias, limitar o nosso potencial criativo e expandir nossa visão sobre todo.


A utilização das regras heurísticas torna-se um hábito, pois agiliza o cérebro na tomada de decisão, simplifica o problema e isso expõe o negociador a frequentes erros cognitivos, porém, nossa vida está cada vez mais acelerada exigindo decisões ágeis, o que não seria possível responder a essa demanda sem as Heurísticas.


A Heurística de Ancoragem está relacionada a análises dos problemas onde são baseadas, ou ancoradas, em antecedentes históricos, pelo tipo de problema, por informações existentes que se traduzem na escolha de um ponto de referência arbitrário (âncora) e ajustados de modo a ir de encontro ao problema em análise.


Em uma decisão ideal, as pessoas deveriam descontar ou ignorar valores sugeridos que sejam desproporcionalmente altos ou baixos, mas isso não ocorre na prática. O primeiro passo na direção da precisão da decisão é ter consciência desses valores extremos e procurar gerar, na medida do possível, outros valores que ajustem a âncora inicial.

Já a Heurística da Disponibilidade determina que a avaliação que um indivíduo faz de determinado assunto é em função da disponibilidade deste na memória, assim os assuntos frequentes e mais recentes são lembrados de maneira mais representativa e imediata, de acordo com Tversky e Kahneman [4]. Esta é uma heurística que envolve diferentes e complexos tipos de funções cognitivas, tais como a memória e a imaginação. Uma forma de minimizar esse problema é comparar explicitamente o super e o subestimado, baseando-se em um maior número de informações sobre o fato demandando, portanto, um maior investimento de atenção e de tempo na busca de alternativas.


Na Heurística da Representatividade, os negociadores efetuam um julgamento somente na base das características mais óbvias do objeto, ignorando características mais sutis que permitiriam um julgamento mais equilibrado. Esta heurística ocorre em função da comparação dentre os assuntos em análise com as referências e ideias pré-estabelecidas (estereótipos como vimos anteriormente, julgamentos prematuros ou preconceitos) que os indivíduos possuem de pessoas e objetos ou eventos. Para melhorarmos nossa capacidade de criar valor é importante ponderarmos os dados obtidos inicialmente como base para os julgamentos. Não confundir a especificidade de um objeto com seu grau de representatividade é um fator igualmente importante.


Outro ponto importante é que as heurísticas ratificam a hipótese de que somos parcialmente influenciados por nosso passado e por nossas tentativas de alterar o presente, portanto, como forma de diminuir tais limitações de ambos os tipos, buscarmos uma consciência do nosso processo de tomada de decisão e geração de ideias viabiliza se pensar de forma mais acurada e criativa.

Autoconsciência para se criar valor


O processo de autoconhecimento é muito importante para que possamos evoluir e entender de que forma podemos melhorar nosso processo criativo e expansão da nossa capacidade de gerar valor.


Confrontar a realidade faz com que possamos abrir novos caminhos, o que consequentemente aumenta o nível de consciência associada ao verdadeiro propósito e abre espaço para um melhor desempenho dos líderes e de sua equipe para uma verdadeira transformação.


No livro do Thomas Eckshmidt [5], Fundamentos ao Capitalismo Consciente, ele menciona que tal consciência deva permitir uma mudança do estado de egocêntrico (do eu) para um foco ecocêntrico (para o nós) e isso é fundamental para a mudança dessa perspectiva integrativa.


A criação de valor para lideres conscientes permite identificar seus próprios interesses mas também os de suas organizações, bem como identificar quais seriam os outros stakeholders envolvidos nesse processo para que assim eles possam defender os interesses dos shareholders e também das comunidades locais, parceiros, concorrentes e mercado, alinhando com os interesses de longo prazo de toda a sociedade.


Para isso é preciso muita prática. À medida que buscamos essa autoconsciência e percebemos novos elementos, fazemos coisas novas e diferentes, assim nos permitimos vivenciar histórias diferentes. Abaixo segue uma lista de exercícios apresentadas por Bolson [6] que ajudam nesse processo de abertura mental:


- Nunca se contente com a primeira idéia que vier a sua cabeça. Busque outras para, entre várias, escolher a melhor.


- Não se acomode. Sempre existe uma maneira de fazer melhor com maior agilidade ou com menor custo aquilo que você já faz hoje. Se você não pensar nisso, alguém irá pensar.


- Seja curioso. Evite reproduzir tarefas de forma mecânica. Busque as razões, os porquês e as implicações. Muitas ideias surgem daí.


- Associe ideias, adapte, substitua, modifique, reduza. As combinações podem ser infinitas.


- Não acredite em frases do tipo “isso nunca vai funcionar” ou “em time que está ganhando não se mexe”. O novo sempre assusta. Toda idéia tem de quebrar resistências.


- Tenha iniciativa. Muitas boas ideias acabam no fundo da gaveta porque seus criadores não compartilham com os outros.


- Ouça. Principalmente se eles pensam diferente de você. As ideias se desenvolvem com a divergência.


- Faça de vez em quando coisas que contrariem seus hábitos no trabalho e na vida.



A imaginação e a criatividade são muito pouco trabalhadas nas organizações infelizmente, portanto, é também um desafio para as empresas aprofundarem as ferramentas e metodologias de desbloqueio para alavancar várias abordagens em seus programas com a solução de problemas, desta forma, deixo aqui a última dica: foque, desfoque e lembre-se: a rotina é um veneno para o seu cérebro.

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